Há
uma década ouvimos que a indústria fonográfica caminhava para a morte,
contaminada pela pirataria. Executivos diziam que era impossível
sobreviver em um mundo no qual 48% dos internautas baixam música de
graça. Não estavam tão errados: em cinco anos o faturamento da indústria
brasileira recuou 50%. Mas não estavam certos. Em 2009, as gravadoras
nacionais cresceram 160% no meio digital. Não foi fato isolado. No mundo
todo, os lucros da música online sobem todo ano. E um estudo mostrou
que até bandas independentes americanas, que seriam resistentes ao velho
modelo, querem que ele exista: três de quatro grupos indie sonham com
contrato com uma gravadora.
Como explicar? Hoje a internet tem
que ser vista como aliada. Mas fazer dinheiro com ela ainda é um
desafio. Afinal, são tempos estranhos em que o clipe de Rebecca Black é o
mais visto do YouTube e, mesmo assim, ela não fica rica com isso. A
conclusão é que quem quiser fazer sucesso precisa estar junto a seu
público. Quer ser famoso? Primeiro passo: saiba como as pessoas ouvem
música hoje.
COMO FAZER SUCESSO
Uma
pesquisa do instituto Nielsen, divulgada em janeiro, entrevistou 26 mil
pessoas para saber como se ouve música na internet hoje. A resposta:
elas não ouvem. Elas veem música. Segundo o estudo, acessar música em
sites de vídeo, como o YouTube, é mais comum que fazer download (veja
mais na página ao lado). E isso não quer dizer necessariamente ver
clipes ou shows. Talvez você tenha deparado com a cena: para ouvir uma
música alguém digita o nome dela no site e deixa tocando, enquanto o
vídeo só exibe a capa ou uma animação. Pois é assim que 57% dos
internautas ouvem música hoje. E isso é importante porque mostra que o
grande inimigo da indústria nos últimos anos, o download pirata, não tem
mais a força de antes.
Outro modelo que atrai cada vez mais
ouvintes é o streaming de áudio. Ao usá-lo, você não precisa baixar uma
música, mas pode ouvi-la em uma espécie de rádio digital que toca o que
você quiser. O serviço já existe no Brasil em sites como Grooveshark.
Mas o formato tende a crescer de verdade com a entrada das maiores
empresas de tecnologia do mundo no negócio. A Amazon anunciou o Cloud
Drive, e o Google, o Music Beta. Depois a Apple apresentou o iCloud.
Quando isso acontecer, uma mudança estará em curso: ninguém vai precisar
baixar uma música para ser dono dela. Muitas empresas apostam que vamos
assinar um serviço para ouvir o que quisermos. "É um dos caminhos para a
indústria. O streaming pode se remunerar tanto por publicidade quanto
por assinatura", diz Ronaldo Lemos, professor visitante da Universidade
de Princeton.
O impacto de movimentos como esse no futuro para
indústria, artistas e público foi discutido em uma conferência
organizada em maio na Faculdade de Música de Berklee, em Boston, nos
Estados Unidos. O Rethink Music reuniu executivos, artistas e
pesquisadores do assunto. E terminou com um certo ar de otimismo,
especialmente entre os mais jovens, segundo fontes ouvidas pela SUPER.
"Nunca houve tanta música sendo produzida e ouvida", diz Lemos, que
esteve no encontro. O problema não é tanto levar a música ao público no
formato desejado, mas ganhar dinheiro com isso. E o consenso é que não
existe mais uma única receita para chegar lá. "O que funciona para o
heavy metal muitas vezes não funciona para o sertanejo", exemplifica
Lemos.
COMO GANHAR DINHEIRO
A
situação para os anos 2010 parece ser menos temerosa. Os lucros das
gravadoras seguem caindo, mas alguns formatos crescem ano a ano. Por
exemplo, no Brasil até a venda de CDs subiu entre 2008 e 2009. E as
receitas de música online já representam 12% do total. Isso no país
vice-líder mundial em pirataria, segundo a Federação Internacional da
Indústria Fonográfica. A instituição apontou que 44% dos internautas
brasileiros baixam conteúdo ilegal. De fato, download legal no Brasil é
uma prática pouco comum - muito por culpa da burocracia, que dificulta
que gravadoras entrem em acordo para que lojas virtuais, como iTunes
Store, e rádios online, como Spotify, ofereçam seus serviços no país.
Não
conseguir comprar música online é má notícia para os brasileiros, pois é
assim que Europa e EUA estão fazendo. Em 2012, pela primeira vez a
comercialização de música online ultrapassará a offline no mercado
americano. No Reino Unido, nunca se vendeu tanta música como em 2010.
Por trás desse fenômeno está a venda de faixas separadamente, conquista
do consumidor que gosta de uma ou outra canção daquele cantor de um
sucesso só. O download de faixa se junta ao download de álbum, CD, toque
de celular, DVD, blu-ray. Novas e velhas plataformas passaram a
conviver juntas; não há um formato que abrace tudo, como na era do CD. O
cassete, dado como morto, vendeu nos EUA mais em 2011 do que no ano
passado todo. O LP também voltou. O carismático zumbi da indústria
vendeu 4 milhões de cópias em 2010 no país. É o maior número desde 1991,
quando internet era só uma rede de uso científico e militar e Bryan
Adams era ídolo. Entre as bandas que mais venderam LPs ano passado estão
nomes antigos, como Beatles, e mais novos, como National. Isso mostra
que há público disposto a pagar por discos. Basta as lojas venderem.
E
os artistas? Como a indústria perdeu poder, muitos aproveitaram o novo
cenário para gerenciar a própria carreira. Bandas como Nine Inch Nails
fazem isso. No Brasil, quem se enquadra no perfil é o Móveis Coloniais
de Acaju. Os processos são tão caseiros que a identidade visual da banda
é produzida pelo vocalista André Gonzáles, que é designer. "Os contatos
são diretos com público e parceiros", diz Fabrício Ofuji, produtor do
grupo. E isso aumentaria a liberdade criativa do artista. "Não há um
poder central que diz o que entra. Qualquer boa ideia tem chance", diz
Damian Kulash, vocalista do Ok Go, banda famosa pelos clipes virais na
internet.
Então como explicar que tantos músicos ainda sonhem
com gravadoras? "O artista continua precisando de alguém para gerir sua
carreira", conta Leonardo Salazar, autor do livro Música Ltda. - O
Negócio da Música para Empreendedores. Afinal, quando não há uma grande
estrutura por trás para promover sua carreira, a responsabilidade do
artista é maior. A cantora Amanda Palmer sintetizou a situação durante o
Rethink Music: "Era mais fácil quando você entrava em uma limusine e te
diziam o que fazer". Ou seja, se não há mais tantos profissionais para
trabalhar em todos os processos envolvidos, o "faça você mesmo" vira
modelo de gestão.
QUEM FAZ SUCESSO
Usar
novas tecnologias para se promover já é obrigação, não importa se sua
banda é o U2 ou Os Lambas. Esse grupo é um dos grandes representantes do
kuduro, estilo de Angola que, junto com outros mundo afora, faz parte
de uma indústria alternativa que cresce nas periferias de vários países.
"Ele parte do princípio de que a música é feita para circular.
Parcerias com camelôs, lan-houses, celular com bluetooth", explica
Lemos. No Brasil, o maior representante dessa música que se espalha
longe dos meios de divulgação tradicionais é o calipso paraense. A Banda
Calypso tornou-se uma das campeãs de venda no país sem o apoio de uma
grande gravadora. Hoje tem contrato com a Som Livre. "Mas a forma
independente continua", diz o diretor de marketing da banda, Sérgio
Barbosa. "Os custos de gravação são da editora do [guitarrista e líder
da banda] Chimbinha."
Estar perto do público é cada vez mais
importante, seja nos mercados populares ou nas redes sociais, que são
ferramentas de algumas das grandes bandas de rock hoje. Nos últimos 12
meses, o Radiohead usou basicamente o Twitter para divulgar seu novo
álbum. O Arcade Fire lançou um clipe interativo com Google Maps e Street
View. O Foo Fighters tocou o novo disco inteiro na internet, ao vivo,
antes do lançamento oficial (e o Kaiser Chiefs então? Descubra na pág.
89).
Mas o que se espera dos próximos anos é que a internet
continue sendo mais vitrine do que fonte de renda. Ei, você que quer
ficar rico fazendo música: para um artista faturar R$ 1 000, sua música
precisa tocar cerca de 820 mil vezes ao mês na rádio online Last.fm.
Isso acontece porque uma única faixa precisa dividir valores entre
gravadora, distribuidor, plataforma online etc. Lady Gaga, por exemplo,
lucrou US$ 167 quando Poker Face chegou a 1 milhão de execuções no
Spotify. Dá para comprar quatro batons da marca que leva o nome dela -
se pechinchar. Nem Rebecca Black, que bateu o recorde de 100 milhões de
visualizações no YouTube em um mês (ou duas vezes mais rápido que Justin
Bieber), ganhou muito dinheiro na rede. Jornais disseram que a menina,
dona do vídeo eleito o mais odiado da história do site, teria ficado
milionária em uma semana apenas com visualizações e downloads de toques
de celular. Não é bem assim. De acordo com a Billboard, ela vendeu 37
mil cópias digitais no período. Somando a renda da publicidade em seu
canal no YouTube, a cantora teria ganhado por volta de US$ 40 mil,
segundo o site Slate. Já paga pouco mais de um ano de aulas na
Universidade da Califórnia, seu estado natal. Mas não faz dela uma
milionária. Seja popular na internet, faça shows, assine contratos
publicitários para então ter chances de enriquecer. Por exemplo, A Banda
Mais Bonita da Cidade, que em maio infestou o Brasil com 2 milhões de
visualizações em menos de uma semana, não ganhou dinheiro, mas agendou
shows pelo país. Se Rebecca Black mantiver a fama, pode ficar rica caso
seu hit Friday vire jingle daquele antigo comercial de cerveja que
cantava "Hoje é sexta-feira..."